Reê: Ano do perdão ou ano do calote?
Perdoar o devedor a cada 7 anos!?
É instituição do calote?
Devarim 15:1-2: "No fim de cada sete anos farás remissão... todo credor que emprestou ao seu próximo remitirá o que tinha emprestado"
Mecanismos de libertação plena e multifuncional, quando se compreende a distinção entre Shemitá e Slichá.
Os sábios são unânimes em afirmar que a remissão da dívida não é um ato de "perdão" psicológico, mas um ato legal de cancelamento. O Rambam (Hilchot Shemitá v'Yovel 9:) diz que:
A Shemitá cancela as dívidas no seu fim, esteja o credor disposto ou não. A Torá não diz 'se quiseres remitir', mas 'remitirás' — é uma obrigação objetiva.
A palavra Shemitá vem da raiz שׁ-מ-ט, que significa "soltar", "deixar cair". É o mesmo verbo usado para soltar a terra no ano sabático. Não há emoção envolvida; há um comando divino que redefine a realidade econômica. A dívida não é "perdoada" no sentido de uma gentileza; ela é anulada pela autoridade da Torá.
Atenção! O parágrafo seguinte (Devarim 15:4) promete: "Para que não haja entre vós pobres". No entanto, o versículo 11 imediatamente adverte: "Pois nunca deixará de haver pobres na terra". Uau! Há aqui uma contradição.
Como resolver esta aparente contradição? O Midrash (Sifrei, Reê 113) explica:
Se guardares a Torá, não haverá pobres; mas se a transgredires, sempre haverá pobres. A pobreza é uma consequência espiritual.
O credor que empresta dinheiro próximo ao ano sabático está fazendo um ato de emuná (fé). Ele sabe que a dívida pode ser cancelada, mas confia que Ha'Shem o recompensará (Shabat 63a):
Quem empresta dinheiro ao seu irmão próximo à Shemitá, e não o cobra, é como se tivesse emprestado a Ha'Shem. Pois está escrito: 'Quem se compadece do pobre empresta a Ha'Shem (Provérbios 19.17).
O credor não está perdendo dinheiro; está investindo no Criador.
Então, qual o significado espiritual: perdão mútuo?
O profeta Isaías (58.6) conecta o jejum de Yom Kipur com a libertação dos endividados:
Porventura não é este o jejum que escolhi: que soltes as amarras da iniquidade, que desfaças as ligaduras do jugo, e deixes livres os que estão quebrantados, e que despedaces todo jugo?
Nachmanides em seu comentário a Devarim 15:1 explica:
"A Shemitá ensina que a terra e o dinheiro não pertencem ao homem, mas a Hashem. Quando o homem obedece e cancela a dívida, ele reconhece que Hashem é o verdadeiro dono de tudo. E Hashem, por sua vez, cancela as dívidas espirituais do homem.
O que parece "calote" é, na verdade, um ato de justiça de D'us.
Na perspectiva humana, o credor perde dinheiro; o devedor escapa da dívida, e a sociedade perde recursos.
Na perspectiva de D’us o credor ganha mérito espiritual; o devedor aprende a confiar em Ha'Shem; e a sociedade eleva seu nivel de consciência e alcança justiça social e fé.
Nossos sábios ensinam que a Shemitá é uma preparação para a redenção final. O Rebe de Lubavitch explica que, na geração dos calcanhares do Mashiach (última antes da chegadado messia), a missão é justamente esta: libertar o outro mesmo quando parece que estamos perdendo.
Assim como o credor cancela a dívida por obediência a Ha'Shem, a nossa geração é chamada a "cancelar" as dívidas espirituais uns dos outros — perdoar, e principalmente fazer tzedaka, ajudar, sustentar — não por sentimento, mas por fé na palavra de Ha'Shem. E quando fazemos isso, somos perdoados por Ha'Shem, e a redenção se aproxima.
Assim, não é calote, é vida!!
A Torá não está criando uma economia de "caloteiros". Ela está criando uma economia de fé e responsabilidade mútua. A Shemitá ensina:
Que o dinheiro não é o centro da vida — HaHa'Shem o centro.
Que a liberdade do outro é a minha liberdade — quando eu liberto o devedor, eu me liberto da escravidão ao dinheiro.
Que a justiça social é espiritual — cancelar uma dívida é um ato de obediencia.
Como diz o Talmud (Berachot 58b): "Aquele que empresta dinheiro ao seu irmão sem testemunhas é abençoado pela Shechiná."
O ato de emprestar a seu irmão, mesmo quando há risco de "calote", é exercício de fé e aplicação da pedagogia transformadora a uma sociedade, para ser verdadeiro povo de D’us.
BH!!


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