Entre o Chicote de Indiana Jones e o Tzitzit



Este ensaio propõe um exercício de hermenêutica comparada, utilizando a teoria da construção de mitos em Hollywood (o caso específico de Indiana Jones) como lente para compreender a cisão histórica e teológica entre a figura judaica de Yeshua haNotzri e a entidade teológica chamada "Jesus Cristo". Partindo da premissa de que o personagem cinematográfico Indiana Jones é uma criação hollywoodiana baseada na essência aventureira do pesquisador Hiram Bingham III, mas dotada de características simbólicas como o chapéu, o chicote e o medo de cobras, traçamos um paralelo honesto e direto com o processo pelo qual o judeu ortodoxo Yeshua (que, entre outros objetivos, veio tratar do "divórcio" entre D’us e as Dez Tribos de Israel) foi transformado no Jesus helenizado e dogmático da cristandade pós-Niceia. A análise utiliza os pilares da Transfiguração do Objeto, a sua identidade e as idiossincrasias como símbolo de humanidade para defender que, assim como Indiana Jones é uma versão romanceada de um explorador real, o "Jesus" da tradição cristã é uma versão mitificada de um Mashiach judeu.


Veja, a cultura humana possui um mecanismo fascinante: ela precisa transformar a realidade em narrativa, e a narrativa em símbolo, para que a mensagem sobreviva ao tempo. O que Hollywood fez com o arquétipo do arqueólogo aventureiro é um exemplo perfeito disso. O personagem Indiana Jones não é uma pessoa real, mas carrega a essência de exploradores como Hiram Bingham III (o descobridor de Machu Picchu) e Roy Chapman Andrews. Bingham era um acadêmico de Yale que se aventurou nas selvas peruanas. O cinema pegou essa essência — o professor que deixa os gabinetes para enfrentar o desconhecido — e a vestiu com símbolos inesquecíveis: um chapéu fedora, um chicote de couro e um medo irracional de cobras.

O ponto crucial é: Hiram Bingham não usava chicote, não tinha medo de cobras na vida real (ou pelo menos isso não era sua marca registrada) e não salvava o mundo de nazistas místicos. No entanto, sem esses símbolos, sua história não teria se tornado o ícone cultural que é "Indiana Jones".

O ponto inicial é que existiu um judeu chamado Yeshua. Ele era, em termos contemporâneos, um judeu ortodoxo. Viveu na Galileia (território das 10 tribos- Efrainita), observou a Torá, e sua missão estava enraizada em um problema profundo da teologia de Israel: o "divórcio" entre o Santo, bendito seja, e as Dez Tribos do Norte (o Reino de Efraim), conforme descrito metaforicamente no livro do profeta Oseias. Yeshua veio como Mashiach ben Yosef para iniciar o processo de reconciliação e abrir a porta para que as "ovelhas perdidas" retornassem.

O que a cristandade fez, especialmente a partir do século II e III (consolidando-se no Concílio de Niceia em 325 d.C.), foi pegar essa figura histórica e submetê-la ao mesmo processo de mitificação que Hollywood aplicou ao arqueólogo. Criaram "Jesus Cristo": um ser divino, coeterno com o Pai, parte de uma Trindade, que nada tinha a ver com as complexidades das tribos de Israel ou com a observância da Halachá. Assim como Indiana Jones é uma criação (com base em uma essência real), o Jesus dogmático é uma criação (com base no judeu Yeshua).


Existe paralelo entre o objeto da missão da a arca e as ovelhas perdidas?

No filme, Indiana Jones busca a Arca da Aliança. No entanto, para o explorador real Hiram Bingham, o "objeto" era a descoberta de cidades perdidas e o conhecimento histórico. O cinema trocou o objeto mundano pelo objeto sagrado máximo para dar peso à narrativa.

Paralelo: Yeshua, o judeu histórico, tinha uma missão focada: "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel" (Mateus 15:24). Sua preocupação era a restauração das tribos do norte, dispersas desde a conquista assíria (722 a.C.). Era uma missão profundamente judaica, enraizada na profecia de Yechezkel (Ezequiel 37) sobre a unificação das duas varas (Judá e Efraim).

O "Jesus" da teologia cristã, por outro lado, tem uma missão cósmica e universal: morrer pelos pecados de toda a humanidade, num sentido grego de expiação vicária que difere, em ênfase, do conceito judaico de Kapparah (expiação). O objeto da missão foi trocado: saiu de "restaurar o pacto dos efrainitas" para "salvar almas individuais do fogo do inferno". É a mesma transfiguração que ocorre no cinema: o objeto real (o conhecimento histórico/cidade perdida) é substituído por um objeto mítico (a Arca/Poder Divino) para tornar a história mais impactante.


Veja a roupagem: O Chapéu, o Chicote e os Tzitzit

A caracterização de Indiana Jones é fundamental para sua identidade. O chapéu o identifica, o chicote é sua ferramenta de precisão, e o medo de cobras o humaniza.

Hiram Bingham, o homem real, não tinha esses apetrechos como marca registrada. Eles foram adicionados pelo roteirista para criar um arquétipo.

Paralelo:

O Chapéu (Fedora) vs. A Kipá/Tzitzit: O chapéu é a "coroa do homem comum" de Indy. Para Yeshua, o judeu do primeiro século, sua identidade estava em seus tzitzit (franjas rituais). Sabemos pelos relatos (Mateus 14:36) que as pessoas buscavam tocar nas "borlas" (tzitzit) de seu manto. Era um sinal visível de sua submissão à Torá. No Jesus mitificado, os tzitzit desaparecem. Ele é geralmente retratado com vestes simples de um romano, um "cidadão do mundo" romano, não um judeu piedoso.

O Chicote vs. A Palavra (ou o "Chicote de Cordas"): O chicote de Indy é uma ferramenta de alcance e controle. Nos escritos nazaremnos (vulgo novo testamento), vemos Yeshua usando a palavra com precisão cortante. Mas há um momento em que ele usa um "chicote de cordas" no Templo (João 2:15). A tradição cristã frequentemente espiritualiza esse ato. No entanto, sob a ótica judaica, era um ato de zelo pela casa de Deus, similar ao de Pinchas. O Jesus mitificado raramente é associado a ações tão concretas e agressivas; ele é o "Cordeiro Manso" que tudo perdoa. O Yeshua histórico tinha a ousadia de um profeta. Ele era duro como no caso da mulher siro-fenícia que suplicava (Mt. insistentemente para que curasse sua filha,15.24), e só após a insistência de seus talmidim (alunos -discípulo na tradição cristã), resolve curar, mas sem antes lembra-los: “não vim, senão para as ovelhas perdidas da casa de Israel”.

O Medo de Cobras vs. O Medo no Getsêmani: O medo de cobras de Indy não é uma característica de Hiram Bingham. Foi um toque de roteiro para torná-lo vulnerável. Da mesma forma, o "Jesus" da teologia clássica (pós-200 d.C.) lutou contra a ideia de que ele pudesse sentir medo. Se ele era Deus, como poderia suar sangue de angústia? Por isso, muitas interpretações cristãs minimizam a humanidade da cena do Getsêmani. Já na visão do Yeshua histórico (o judeu ortodoxo), o "suor de sangue" (Lucas 22:44) é a prova máxima de sua humanidade e de seu papel como Mashiach ben Yosef, o messias sofredor que carrega as dores do povo (Isaías 53). É o medo de cobras de Indy: um medo real que não o impede de cumprir a missão.

Isto é  incrível!!  Inimigo: Nazistas vs. Legalismo (e a Cegueira sobre as Tribos)

No filme, o inimigo de Indiana Jones são os nazistas. Eles são a personificação do mal absoluto, que busca o poder através do sagrado.

No contexto de Yeshua, o inimigo não era o "romano" (embora fosse o opressor político), mas o "legalismo vazio" que impedia o povo de ver a essência da Torá e, mais importante, impedia a compreensão do plano divino para as Dez Tribos. As elites de Jerusalém tinham dificuldade em aceitar que a redenção pudesse vir da Galileia ("das nações"), justamente o território que outrora pertencia às tribos do norte e que era visto com desprezo.

O "Jesus" da cristandade, ao ser mitificado, ganhou um inimigo diferente: "os judeus" como um todo (o que gerou séculos de antissemitismo) e o "pecado original". A questão específica das tribos de Israel, que era central para o judeu Yeshua, foi completamente apagada. No cinema, o inimigo foi simplificado para o nazista. Na teologia, o inimigo foi simplificado para o "judeu incrédulo" ou o "pecador".


A frase de efeito caracterizadora: "Pertence a um Museu" vs. "Vim para os Perdidos de Israel"

A frase de Indy, "Isso pertence a um museu!", encapsula sua ética: o sagrado e o histórico não são para posse privada, mas para o patrimônio coletivo.

A frase de Yeshua, "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel", encapsula sua missão: a salvação e a Torá não são para serem privatizadas por uma elite, mas para resgatar os remanescentes esquecidos.

O paralelo aqui é que ambas as figuras lutam contra a apropriação do sagrado. Indy luta contra os nazistas que querem a Arca para dominar. Yeshua luta contra a estrutura que, ao negligenciar as tribos do norte e o "povo da terra" (Am Haaretz), estava privatizando a salvação. O Jesus mitificado, porém, inverte essa frase: ele parece dizer "Vim para todos", mas ao custo de apagar a prioridade de Israel, criando uma teologia de substituição onde a Igreja é o "novo Israel".

Reconhecer que Indiana Jones é uma criação baseada em exploradores reais, mas com adornos ficcionais, não diminui o prazer do filme. Da mesma forma, reconhecer que o "Jesus" dogmático do Concílio de Niceia é uma criação teológica baseada no judeu Yeshua não precisa ser um ato de ódio ao cristianismo, mas sim um ato de honestidade histórica e espiritual.

Para o judeu que crê em Yeshua como Mashiach, este exercício é libertador. Ele permite enxergar, por trás das camadas de tinta grega e romana, a figura de um judeu com tzitzit, preocupado com as tribos de Israel, que sentiu medo no Getsêmani (como Indy sente medo de cobras) e que usou sua "língua como chicote" para desmascarar a hipocrisia.

A criação hollywoodiana de Indiana Jones nos ajuda a entender a criação eclesial de Jesus. Em ambos os casos, a essência (o explorador real / o Mashiach judeu) existe. Mas o símbolo (o herói do cinema / o Deus da cristandade) tomou o lugar da realidade na imaginação popular. O trabalho do estudioso, seja do cinema ou da teologia, é sempre o mesmo: cavar fundo, como um arqueólogo, para encontrar a verdade que está enterrada sob os escombros da mitificação.

BH!!

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