A Armadilha Invisível da Fé Herdada



A Armadilha Invisível da Fé Herdada e  como sua mente ainda lê a Torá com lentes cristãs.


"Faremos e ouvirenos"

Isto disseram os que estavam no Sinai no momento decisivo, equivalente ao "sim" no casamento.

"Faremos e ouviremos” é a inversão radical da lógica humana: primeiro compromisso, depois compreensão. No Sinai, o povo não exigiu garantias, mas entregou confiança absoluta, como no “sim”, em um casamento. 

Assim agiram, porque o envolvimento da razão (o que viram e como ouviram de Ha'Shem) e o sentimentos (toda a emoção e o percepção de segurança e firmeza) fuzeram com que dissessem: "faremos e ouviremos".

Na minha caminhada vejo semanalmente muitos que se chegam a nosso site interessados no judaísmo, na tentativa de serem melhores cristãos. Suas almas têm sede de D’us e por isso entram em contato. Mas, sua alma cativa (sindrome de Estocolmo),  o impelem a simplesmente querer validar sua fé, para não sair  do conforto do seu cativeiro, e assim, muitos demoram anos para efetivamente fazer teshuvá (retorno a D'us) se entregando integralmente  e sem reservas. É, mesmo, estreito o caminho, e poucos os que por ele querem andar!!


 O Fantasma Teológico

Veja: Por que você desconfia da Torá usando a régua do seu passado?

Ao se aproximar do judaísmo, seja para retornar a D'us (Teshuvá) ou pelo processo de conversão (Guiur), você prática um dos atos mais corajosos que uma alma pode realizar. E não pense que estou valorizando seu interesse. É que existe um só D'us, um só Mashiach, uma só Torá e um só povo, que com promessa de reino de serem sacerdotes (os que sabem como aproximar as pessoas de D'us).  Preciso ser mais óbvio?!!

No entanto, há uma armadilha psicológica invisível que ronda esse caminho.

 A armadilha é a seguinte: não é que você não está desconfiando do judaísmo por ele ser "incompreensível" ou cheio de coisas estranhas (ascender velas, vinho...) mas porque você ainda está enxergando a Torá através das lentes da religião em que foi criado.

Quando você se depara com uma prática judaica absolutamente estabelecida e milenar,  como v.g. dedicar um estudo da Torá para a elevação da alma de um falecido (L'ilui Nishmat), uma luz vermelha de alerta, liga em sua mente, e você imagina que isso ou é  o espírito santo te alertando ou a consciência (luz vermelha) de que, essa prática da "elevação da alma" não  está dentro de um ceticismo saudável. 

Aí está a armadilha de sua mente. Um reflexo de defesa teológica do seu passado cristão que simplesmente identificou que essa prática não  está de acordo com o seu catecismo.

Há uma ironia na sua desconfiança: Você olha para a prática de ajudar uma alma através do estudo e seu cérebro, moldado pelo ocidente cristão ou secular, imediatamente entra em pânico: "Espere aí! Isso se parece com rezar pelos mortos, com indulgências, com a teologia que eu deixei para trás. Onde está o versículo bíblico literal que prova isso? Se não me mostrarem o capítulo e o versículo, eu desconfio."

Você percebe a profunda ironia desse comportamento? Ao exigir um "versículo isolado e literal" para validar uma prática rabínica, você acha que está sendo um investigador rigoroso da verdade, mas na verdade está operando sob o princípio protestante da Sola Scriptura (traduzida e interpretada pelos cristãos). Inconscientemente você está tentando forçar o judaísmo a passar no teste de autenticidade usando a metodologia da própria religião da qual você está tentando se afastar.

Como pode uma outra religião é um povo que não faz parte do reino de sacerdotes,  que traduz a "Bíblia" e a interpreta conforme seus interesses, ser agora, o fiel da balança?! Exemplo a palavra igreja vem da palavra assembleia do hebraico. No "Velho Testamento" deles a mesma palavra eles traduzem como congregação é no "Novo Testamento", a traduzem como Igreja!!!

Até mesmo o que, no original em grego de Atos diz  "a igreja de Moisés no Sinai" eles não traduziram como igreja mas como congregação:

 "Este é o que esteve na congregação [ekklesia] no deserto, com o anjo que lhe falava no monte Sinai, e com nossos pais, o qual recebeu as palavras de vida para no-las dar". Atos 7:37-38

O judaísmo não é, e nunca foi, uma religião baseada apenas em um único texto escrito, por si só. A Torá Escrita (Torá Shebictáv) e a Torá Oral (Torá Shebealpê, condensada por Chazal) são um único organismo vivo e indissociável. 

Se o código de leis (Shulchan Aruch), os sábios do Talmud e a tradição dos profetas decretam que uma prática é legítima, isso é o fundamento. Exigir que o judaísmo funcione como uma cartilha literal de preceitos óbvios é desrespeitar a própria estrutura da revelação no Sinai.

 O Significado Real de "Farei e Ouvirei"

No sopé do Monte Sinai, o povo de Israel declarou: Na'aseh V'Nishmah, "Faremos e [depois] ouviremos, compreenderemos" (Shemot 24.7).

Essa não foi uma declaração de obediência cega ou fanatismo. Foi o reconhecimento maduro de que você não pode compreender a física de um oceano se recusando a entrar na água. A desconfiança excessiva, travestida de "cuidado intelectual", muitas vezes é apenas o medo do seu ego de se render a um sistema que ele ainda não domina.

Lembre-se: no Sinai disseram faremos e ouviremos, porque o envolvimento da razão e o sentimentos (toda a emoção e a percepção de segurança e firmeza) os fizeram declarar. Você sabe que a Torá é a verdade, você o ama e se sente atraído por Sua revelação no judaísmo.

Você não precisa engolir conceitos sem lógica; o judaísmo ama a pergunta e estimula o debate. Mas há uma linha divisória crucial: 

Uma coisa é a busca legítima, quer saber as origens para expandir a mente e enriquecer a alma.

Outra, a desconfiança defensiva. Buscar falhas no sistema judaico para validar teologias, doutrinas ou as certezas da fé anterior.

Se descolar dos fantasmas teológicos de toda uma vida exige tempo. É natural caminhar com cuidado. Mas fundamental é viver cada nova descoberta  da Torá, mesmo que não compreenda 100%, pois emuná é firmeza confiança em Ha'Shem,  e isto só  se alcança praticando, e de prática em prática,  você  se eleva e amplia a confiança, pois a fé sem prática é morta.

BH!!

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