Parashá Nassô: Quando o Ego nos Transforma em Espelho


A parashá desta semana, Nassô (נָשֹׂא)
— a mais extensa da Torá — apresenta um verdadeiro choque de conceitos. Ela rompe com a cultura da mortificação da carne, que separa corpo e espírito como se o primeiro fosse mau e o segundo bom, e que busca a elevação espiritual por meio de jejuns constantes, isolamento e outras práticas ascéticas comuns em religiões que herdaram ideias do judaísmo, como o cristianismo e o islamismo.

Na Parasha Há’Shem, queremos focar em dois temas que apresentam um conjunto de rituais e compromissos pessoais: as leis do Sotá (a mulher suspeita de adultério);e, as do Nazir (o nazireu que se consagra por meio de abstenções).

À primeira vista, parece uma justaposição de assuntos díspares. No entanto, para o olho que busca a profundidade da Torá, cada um destes temas—Nazir e Sotá — encerra uma lição fundamental sobre o verdadeiro Avodat Hashem (serviço a D'us) e o perigo potencializado nesta era de imagem em REDES SOCIAIS, de transformar a RELIGIOSIDADE NUM ÍDOLO DE ESTIMAÇÃO.

Veja que incrível: o espelho e o véu no significado de LEHITSHAKEF. A raiz que nos guia é o verbo לְהִשְׁתַּקֵּף (Lehitshakef). Construído na forma reflexiva (Hitpael), carrega o sentido de "fazer-se ver através de" ou "refletir-se". Um espelho não prende a luz; ele a reflete para que possamos ver o que está diante de nós.

Na espiritualidade, ser um ish shakef significa alcançar a verdadeira transparência: permitir que o mundo olhe para as nossas ações e, através delas, não veja a nós mesmos, mas o Autor de toda a existência — o Santo Bendito Seja Ele e a Sua Torá.

O mundo anseia por isto. Quando um servo de Há’Shem atua com integridade, o profeta Isaías já nos ensinava que as nações dirão: "Quão grandes são as suas tendas, ó Jacó" (Bamidbar 24:5). O mundo louva ao Criador quando a Sua criação reflete a Sua vontade.

Mas o que acontece quando a transparência é bloqueada pelo ego transformando-se em espelho? O que ocorre com a alma quando o ego resolve ser espelho? E o que acontece quando a pessoa deseja apenas “ser espiritual”, mas não quando busca aprender a Torá para cumprir as mitzvot?

Aí reside o grande alerta da parashá.

O Nazir e o Sotá: Dois Lados do Mesmo Perigo

A parashá justapõe o Sotá (a mulher que se desvia do caminho) e o Nazir (o homem ou mulher que se consagra por meio de abstenções de vinho e cortes de cabelo). Os comentaristas notam os fortes paralelos linguísticos entre as duas passagens, como se a Torá quisesse estabelecer um diálogo íntimo entre a santidade e a suspeita de ruptura .

A explicação clássica é que o Nazir é o antídoto para o Sotá. Ao ver o resultado trágico da promiscuidade, a pessoa se afasta do vinho (símbolo das festas mundanas) para se consagrar a D'us.

Contudo, o Rambam (Maimônides) nos oferece uma leitura muito mais profunda e perturbadora em Mishneh Torá, Hilchot De'ot (Leis das Opiniões). Uensina que o caminho correto é o Shvil HaZahav (o caminho dourado). Ao comentar sobre o Nazir, o Rambam observa um facto surpreendente: a Torá exige que, ao final do seu período de consagração, o Nazir traga um sacrifício pelo pecado (chatat).

Porquê? Porque ele se privou do vinho e de outras alegrias permitidas pela Torá. O Rambam conclui que aquele que se excede nas abstenções e nas rigidez é tratado como alguém que pecou contra o seu próprio corpo. Diz o Rambam: "A pessoa não deve dizer: 'É proibido comer carne ou beber vinho'... Quem segue este caminho é chamado de pecador" .

Aqui está a inversão trágica. O método (abster-se, criar cercas cada vez mais altas) foi concebido para quebrar a arrogância e trazer anavá (humildade). Mas, com frequência, ele se torna um ídolo. A pessoa olha para as suas "cercas" e, em vez de ver o Campo Santo (a Torá e D'us), vê a si mesma refletida no verniz da sua própria religiosidade.

O Método como Ídolo: A Avodá Zará do "Eu"

O judaísmo é absolutamente radical contra a idolatria (Avodá Zará). Contudo, como nos ensina o Rav Israel Chait, o alvo final de toda idolatria não é a madeira ou a pedra, mas o auto engrandecimento. Quando uma pessoa se orgulha da sua prática religiosa — "ninguém é tão santo quanto eu", "ninguém guarda Shabat como eu" — ela está a cometer o pecado primordial. Faraó e Haman eram idólatras não apenas porque serviam falsos deuses, mas porque viam a si mesmos como dignos de culto .

Quando as nossas ações deixam de ser uma janela para o Divino e se tornam o espelho que reflete apenas o nosso próprio "eu", entramos no território do proibido. A espiritualidade seca, amarga e arrogante que emerge deste processo é denunciada pelo Rambam nas suas famosas  Cartas. Ele ataca aqueles que fazem da tristeza e das proibições excessivas o centro da fé, esquecendo que a Shechiná (Presença Divina) habita onde há alegria na mitzvá.

Se o diagnóstico é a arrogância que transforma o método em ídolo, o remédio está na humildade. E nenhuma fonte judaica é tão poderosa sobre este tema quanto a Igeret HaRamban (Carta dRamban).

Nesta carta endereçada ao seu filho, Ramban (Nachmanides) não apenas sugere a humildade; ele prescreve um protocolo cirúrgico para removê-la do coração:

"Acostume-se a falar com calma com todas as pessoas. Isso o protegerá da raiva, que é um traço de caráter muito ruim... Uma vez que você se distanciar da raiva, a qualidade da humildade entrará em seu coração." .

Ramban ensina que a raiva e a arrogância são inseparáveis. A pessoa rígida grita ("Isto é proibido!"). A pessoa humilde fala com Nachat (calma). Ele continua instruindo a andar com os olhos baixos (humildade diante da grandeza de D'us) e a considerar todos como maiores que si mesmo.

O ponto central é: quando alcançamos o estado de hishtakfut (transparência), as pessoas olham para as nossas ações e veem a Shechiná no nosso meio. Ramban promete: "Quando você agir com humildade e modéstia diante de todos, e temer a D'us e o pecado, então a glória da Shechiná repousará sobre você" .

Para concluir, recordemos a famosa história de dois litigantes que disputavam um pedaço de terra. Cada um exibia as suas provas, os seus métodos, as suas "cercas" para provar que a terra lhe pertencia. O grande sábio Rabi Chaim de Volozhin (discípulo do Gaon de Vilna) aproximou-se do chão, colocou o ouvido sobre ele e depois ergueu-se, dizendo:

A terra diz: 'Este diz que sou dele, e o outro diz que sou dele. A verdade é que ambos acabarão pertencendo a mim.

O estudo do Nazir funciona como o maior antídoto da Torá contra o perigo do orgulho espiritual. É muito fácil para alguém que decide ser "mais religioso" ou "mais espiritualizado" cair na armadilha de olhar com superioridade para os outros.

Ao exigir que o Nazir traga um Korban Chatat (sacrifício pelo pecado) no final do voto, a Torá está enviando uma mensagem pedagógica eterna a todos os estudiosos: "Você se isolou? Você achou que as leis comuns da Torá não eram suficientes para a sua alma e quis criar as suas próprias restrições de santidade? Saiba que, por trás desse seu desejo de ser anjo, pode haver o pecado do orgulho e a rejeição do mundo que Eu criei".

No livro acadêmico de estudos talmúdicos The Torah-Centered Life, analisa-se como este trecho de Parashá Nassó é utilizado na literatura de Mussar (ética judaica) para ensinar que a verdadeira grandeza não está em se destacar criando proibições extras, mas em cumprir as leis comuns com perfeição e humildade dentro da comunidade.

O judaísmo ensina que as nossas palavras têm poder metafísico e jurídico real. Quando um ser humano abre a boca e diz "Eis que sou um Nazir", a realidade física ao redor dele muda instantaneamente: o vinho kosher torna-se proibido para ele sob pena de chicotadas, e o seu cabelo adquire o status de um objeto sagrado do Templo.

Estudar o Nazir nos conscientiza sobre a responsabilidade absoluta da nossa boca. Se um homem pode santificar ou proibir coisas a si mesmo apenas com a fala, quanto mais cuidado devemos ter com o que sai de nossos lábios (evitando fofocas, mentiras e ofensas).

Ao sair do Shabat e ao longo da semana, façamos um Cheshbon HaNefesh (exame da alma). Se o nosso judaísmo nos torna amargos (reclamando dos que não são iguais a nós), arrogantes ("sou o único certo") ou raivosos (irritando-nos com os "menos" religiosos), saibamos: o método virou ídolo.

Paremos. Recuperemos a voz calma. Recuperemos a humildade. E lembremo-nos do Rambam: "A pessoa não foi criada para o Shabat; o Shabat foi dado para a pessoa" (Talmud Yoma 85b). O foco nunca é a cerca; o foco é o Santo Campo que a cerca protege.

BH!!

Comentários

  1. Excelente abordagem! A luz da sabedoria divina ilumina os corações embrutecidos pela arrogância.

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